Sri Lanka: a grande e doce surpresa da minha jornada pela Ásia

11.01.2018

Decidi ir para o Sri Lanka quando estava na Indonésia entre Junho e Julho de 2017 e, logo após comprar minha passagem, tive a grata notícia que teria companhia na minha aventura pelo país. Nunca vou esquecer a mensagem da Jana no whatsapp falando, "I want to go to Sri Lanka as well, but I understand that 7 weeks travelling together might be too much. So feel free to tell me if you want to go alone". A mensagem dela se referia ao fato de termos decidido ir para Malásia e Myanmar juntas, o que seriam 4 semanas e mais 3 no Sri Lanka, seriam 7 semanas no total. Respondi um "let's just go for it" e apostei que ia dar tudo certo, mesmo sabendo que não tínhamos 100% de intimidade. A Jana Jans é uma travel friend da Alemanha que conheci em Bali na Indonésia no início de Junho de 2017, no Bali Beats, o hostel onde me hospedei 4 vezes durante os dois meses que viajei pelo país antes de voltar em Outubro de 2017. Ela, como eu, também estava fazendo um ano sabático e, além disto, tínhamos praticamente a mesma idade. Depois de Bali, nos encontramos por acaso em Kuta, na Ilha de Lombok, e foi quando tivemos mais contato. Num determinado dia, estávamos jantando e trocando idéia sobre nossos planos de viagem, foi quando vimos que tínhamos lugares em comum para explorar e decidimos adaptar nosso roteiro para viajar juntas. E, foi ai, o início de  uma viagem inesquecível e de uma amizade para a vida. Após Kuta, nos separamos e nos encontraríamos no início de Agosto direto na Malásia para iniciar nossa aventura por 3 países na Ásia, incluindo o Sri Lanka. Durante nossas várias conversas e planejamento remoto, definimos que queríamos explorar o norte e leste do país, já que, pelas nossas pesquisas, eram regiões menos exploradas pelo turismo em função da guerra civil que durou até 2009. A região sul é famosa pelas praias e pelo surf e já esta mais no radar dos turistas, mas acredito que numa proporção ainda bem menor que os países do "Sudeste Asiático".

 

​Nosso roteiro começaria pela capital Colombo, de onde partiríamos para o Parque Nacional Udawalawe, seguido de Ella, Nuwara Ellyia, Kandy, Sigyria, Trincomale, Anuradhapura e Jaffna. Não tínhamos datas fixas, mas sabíamos que estes eram os lugares que queríamos conhecer. Deixamos alguns dias livres no final das 3 semanas para termos mais flexibilidade para mudanças de planos (o que acabou acontecendo hehe...).

Chegamos em Colombo, depois de uma conexão longa em Kuala Lumpur, para passar 2 noites e organizar o transporte até Udawalawe, que fica no centro sul do país. A minha primeira impressão da capital foi, sem dúvida, "estou na Índia" hehehe. Impossível não ver as semelhanças no meio de tantos tuk tuks e dos locais vestidos com as mesmas roupas que os indianos usam. A única diferença era: "não tinha as buzinas do trânsito da Índia" hehehe.

 

 Bom, mas antes de começar a contar sobre a minha trajetória, preciso mencionar que a capital Colombo foi o lugar onde comi uma das coisas mais deliciosas da minha trip. Não é comida Asiática, mas tinha um sabor e aparência maravilhosos. Era simplesmente a melhor "french toast" da vida, com bananas carameladas e um creme de maracujá dos deuses. Só de olhar a foto consigo sentir a explosão de sabor do dia que comi! A foto fala por si só! Muito bom! O nome do lugar onde degustei esta maravilha gastronômica é "One up all day breakfast". Fecha parênteses, hehehe!

 

Decidimos pegar um ônibus local de Colombo para Udawalawe e, o bus e o trajeto em si, já nos deram uma palhinha do que seria esta experiência pelo país. O ônibus era simples e tinha 6 bancos nas fileiras (3 de cada lado), mas eram bem menores que o normal. Até ai tudo bem, seria apenas algumas horas e eu tinha comida, meu livro e meu celular com música para me distrair. O "problema" (que não era bem um problema, mas era kkk...) era o som altíssimo (nível ensurdecedor) da TV do bus, que quando não estava passando filme estilo bollywood estava tocando música. Sabe aquele tom de música que te deixa nervosa só de pensar que você vai ter que ouvir aquilo por horas!!! Não sei quantas vezes olhei para a Jana com aquele olhar, "não vou aguentar", mas sobrevivi após 6 horas de viagem. Em contrapartida, nos divertíamos observando os locais e até tentando uma comunicação, apesar de não falarem inglês. Neste trecho, tive a pior (pior mesmo!) experiência da minha vida com banheiros sujos (foi traumático! kkk).

Chegamos em Udawalawe e já organizamos o passeio para o Parque Nacional no dia seguinte. Na cidade não tem muito que fazer, então jantamos na pousada e dormimos no nosso quarto extremamente quente com ventilador hehe (mas felizes!). Na manhã seguinte, partimos para o parque antes do nascer do sol. Eu já sabia que não ia me impressionar como nos Parques Nacionais da Tanzânia, mas de qualquer forma foi tudo lindo e uma experiência bem tocante com os elefantes. Eu adorei! O Sri Lanka tem milhares de Parques Nacionais e é famoso pela quantidade grande de elefantes no país! Pelo que pesquisei, existem quase 6 mil elefantes e é o maior número na Ásia. (--> Apenas um parênteses em relação a algo importante e que me tornei mais consciente durante minha viagem: turismo com animais é muito triste. Então, antes de visitarem qualquer lugar onde os animais não estão no seu habitat natural, como parques nacionais e florestas, pesquise e se informe sobre a reputação do local. De uma forma ou de outra, o objetivo final acaba, muitas vezes, sendo o turismo e não o bem estar dos animais).

 

Parque Nacional de Udawalawe "checked"! Partimos para Ella, numa viagem de tuk tuk que duraria 3 horas. Ella fica a 1041m de altitude e, até hoje, não sei como o motorista conseguiu subir a serra com aquele tuk tuk, eu, a Jana e as 4 mochilas! Hehe. Foi uma aventura e tanto, mas chegamos. A cidade fica no centro do país, na região que é famosa pelas plantações de chá, onde você vê bastante movimento de viajantes, sendo o nosso ponto de partida para conhecer a famosíssima rota de trem entre Ella > Kandy (que dizem ser uma das rotas mais bonitas do mundo!). Num dos dias que estivemos por lá, alugamos scooters e fomos conhecer o "Lipton's seat" e a, também famosa, "Nine Arches Bridge".
O "Lipton's Seat" é um lugar numa montanha em homenagem ao criador da marca de chá Lipton, "Sir Thomas Lipton", onde ele curtia o visual 360 graus das suas vastas plantações e, também, recebia seus convidados. Em 1890 ele comprou propriedades no Sri Lanka e instalou fábricas de chá na região de Dambethenna. Com isto, se tornou o responsável por abrir as portas da indústria de chá no país e, também, institucionalizar o chá como parte da cultura do Sri Lanka. O caminho para chegar ao topo é fascinante! Dizem que a vista lá de cima é sensacional, mas quando chegamos o tempo estava fechado (pena!). Ele fica há quase 2000 metros de altitude (Ella fica a 1041m) e a quantidade de plantações na subida, a disposição das árvores, o verde, as estradas em zig zag, os locais super simpáticos, toda esta mistura torna o cenário simplesmente impressionante! Em muitos momentos paramos a moto na estrada estreita para contemplar a paisagem e era impossível não dizer em voz alta..."this is soooooo beautiful!!". O dia estava um pouco nublado e mesmo não tendo toda a sorte com a vista, o trajeto em si valeu mais que a pena! O local é de uma grandiosidade e beleza incríveis.

 

A "Nine Arches Bridge" é um cartão postal conhecido da região, onde os viajantes podem caminhar pela ponte depois que o trem passa. Ela é herança da colonização britânica e a construção impressiona. É muito legal e, com certeza, te oportuniza ótimos clicks.

 

Existem outros pontos turísticos ao redor de Ella, mas acabamos não conhecendo. Nosso foco realmente era o trem :). Com os tickets na mão (que tivemos a sorte incrível de comprar os últimos dois lugares!), seguimos para Nuwara Ellyia. Apenas um comentário aqui, que foi motivo de piada durante toda a trip, era a minha dificuldade em falar o nome desta cidade hehehe. Toda vez que eu e a Jana falávamos sobre o roteiro, vinha a minha pergunta, "como é mesmo o nome da cidade entre Ella e Kandy?"...ela só me olhava, ria alto e falava "again??" (de novo??), porque isto aconteceu milhares de vezes. Até que decidi escrever no celular para gravar na mente e nunca mais esqueci! kkkk

 

Não encontro muitas palavras para descrever este primeiro trajeto de trem entre Ella e Nuwara Elliya, a não ser, Uauuuuuuu! Ele é simplesmente surpreendente, imperdível e de um verde tão lindo que fica difícil de explicar. Dizem que este é um dos trechos mais bonitos do mundo! O impacto "positivo" do cenário maravilhoso foi tão grande que me peguei num momento falando para minha amiga: "este lugar me lembra a Suíça...". E olha que pra mim a Suíça é um dos países mais lindos e perfeitos que existe! O fato de o trem manter as portas e janelas abertas adiciona um charme todo especial. É algo inusitado, mas que faz a alegria total dos viajantes se arriscando pelos melhores clicks! (Ps. Na primeira classe existe ar condicionado, então não deve ser a mesma vibe! fica a dica! ;) Após algumas horas de viagem, chegamos em Nuwara Ellyia, que foi apenas nosso pitstop entre Ella e Kandy, já que o trajeto de trem é bem longo. Esta cidade é bem reconhecida por causa das plantações e fábricas de chá, e lá, decidimos que iríamos tomar um destes chás da tarde chiques kkkk. Já que estávamos na cidade do chá, nada melhor que entrar no clima não é? Nos arrumamos, colocamos até batom e fomos no "afternoon tea" do Grand Hotel. Foi uma delícia!! Conversamos, curtimos por horas e, depois, ainda paramos no bar do hotel onde a Jana me pagou uma taça de vinho tinto. Eu amo vinho, e todos os momentos da trip que pude beber vinho (não foram muitos!) eu curti muito, mas naquele dia eles tinham "Malbec argentino", que é um dos meus vinhos favoritos. Nem preciso dizer que degustei cada "ml" da taça como se fosse o líquido dos deuses! Obrigada Jana!!!

 

Em Nuwara Ellyia andamos bastante a pé, e percebemos que em alguns lugares as crianças nos pediam caneta e lápis. Claro que imaginamos que era porque vinham de famílias pobres e não tinham condições de comprar, mas o mais curioso era que eles pediam as coisas ao invés de dinheiro. Isto nos tocou e vou falar mais sobre isto num dos próximos destinos. 

No dia seguinte fomos conhecer a "Pedro's tea factory", e posso dizer que este foi um dos dias que mais me marcou no Sri Lanka. Nosso tour guiado foi feito por uma mulher (infelizmente não anotei o nome dela), e durante o passeio ela nos explicou todo o processo de preparação e fabricação de todos os tipos de chá, sempre muito direta e perguntando se tínhamos alguma dúvida. No final, ela comentou que as mulheres são responsáveis por colherem e escolherem as folhas de chá das árvores, algo que é feito manualmente. As mulheres precisam colher 18 kg de folhas (se você imaginar quanto pesa uma folha, 18kg é bastante coisa!) por dia para poderem receber em torno de $3 a $4 diário pelo trabalho. Um salário que ela falou que não é suficiente para sustentar a família e pagar escola para os filhos. Elas não são felizes, mas não tem outra opção porque a região não oferece tantas oportunidades. Neste momento lembro que eu e a Jana trocamos olhares e as duas estavam emocionadas demais. A sinceridade daquela funcionária e, principalmente, a realidade da vida dela nos tocou demais e foi difícil evitar as lágrimas. Imagine, nós, duas mulheres viajantes tendo a oportunidade de conhecer o mundo, ouvindo uma mulher guerreira dizendo que ganha $3-4 por dia de salário para sustentar a família. Certamente existem muitas pessoas no mundo que não ganham nem isto, mas estar ali na frente de um exemplo da desigualdade no nosso mundo, foi de doer. Muita admiração e respeito por estas pessoas que lutam para sobreviver.

Chegou o dia de encarar o último trecho do trem, entre Nuwara Ellyia e Kandy. Segundo alguns blogs, esta parte é a mais bonita, e preciso confessar que eles estão certos. Heheh... Se o primeiro trecho já tinha me surpreendido e me lembrado a Suiça, imagina este... nooossaaa, que paisagem mais lindaaaa, de morrer! Um cenário cheio de montanhas verdíssimas, cachoeiras, infinitas plantações de chá, túneis e muitas florestas com aquelas árvores super altas que até parecem coisa de filme. Até mesmo as paradas nas estações locais foram muito legais. Aquele entra e sai de gente com malas na terceira classe faz parte da experiência e não tem como não curtir. Eu amei! Neste dia, ainda tivemos a sorte de estar num vagão com um grupo grande de locais, que foram cantando todos juntos, na maioria do tempo, e fizeram nossa alegria. É sempre incrível de ver como momentos simples como este se tornam tão especiais, eles pareciam mega felizes e cantavam literalmente com o coração. Deu para sentir a energia boa! Não posso confirmar se esta rota é a mais bonita do mundo, mas a beleza impressiona demais! Fora que o ticket custa menos de 6 dólares!

 

Chegamos em Kandy, onde passamos apenas uma noite e no dia seguinte partimos numa viagem de tuk tuk para a cidade de Sigiriya no centro-leste do país.

 

Cidade antiga de Sigiriya é uma das antigas capitais do Sri Lanka, construída em cima de um rochedo em forma de leão durante o reinado do Rei Kasyapa (477-495 a.c) e, atualmente, considerada Patrimônio Mundial da Unesco. Um lugar simplesmente surreal, que desde que vimos as fotos na internet resolvemos incluir no roteiro. Chegamos à cidade pela manhã e decidimos ir, naquele dia mesmo, até a atração principal. Antes disto, pegamos as bicicletas e fomos dar uma banda pela cidade e mais uma vez, tivemos um momento especial, marcante e genuíno durante esta trip pelo Sri Lanka. Eu tinha mais alguns cartões postais para enviar para amigos e família (Já tinha enviado alguns de Nuwara Ellyia), então resolvemos parar no "post office" depois de fazermos umas comprinhas numa lojinha de souvenirs. Chegando lá, pedi para enviar as máscaras de madeira que tinha comprado e, enquanto o senhor querido que nos atendeu organizava a caixa, eu terminava de escrever os postais. Era impressionante toda a dedicação e atenção dele para a minha caixa e ao processo todo. Isto durou mais de uma hora, e neste meio tempo a Jana, que estava me esperando, ficou observando as pessoas que chegavam e como as coisas funcionavam por ali. Quando terminamos, a Jana começou a fazer algumas perguntas de como as coisas funcionavam, porque ela tinha ficado curiosa. Neste momento parece que algo brilhou naquele senhor que estava ali na nossa frente. O olhar dele de felicidade para ela foi algo extremamente genuíno e ele falou "I am so happy, nobody has ever asked questions about my job.". Ele começou a explicar tudo, contou que trabalhava ali há muitos anos (não anotei, mas era tipo a vida toda!) e surpreendentemente nos convidou para conhecer o post office. Nós achamos o máximo e ficamos super tocadas pelo convite e por toda a empolgação dele! Entramos e parecia que estávamos voltando no tempo quando ele nos mostrou vários arquivos muito bem organizados, papéis, contracheques, controles e como tudo era feito manual. Ele falava com um orgulho que não dava nem para acreditar. Lindo de ver e, eu e a Jana, sempre trocando olhares não acreditando na oportunidade que tivemos de viver um momento tão especial. Pedimos uma foto e foi o ápice do dia para aquele senhor tão dedicado, mas invisível para tanta gente (graças a Deus não foi nosso caso!). Ele sorriu, nos abraçou e agradeceu tanto durante a foto que não tinha como não se sentir abençoada! Pegou nosso contato e alguns dias depois ainda nos mandou email. Depois de tanta dedicação, amor e organização, não fiquei surpresa em saber que a caixa que mandei de lá foi a única a chegar na minha casa no Brasil. (sim, mandei muitas coisas para casa nos meses anteriores, mas nada nunca chegou ;(...).

Bom, chegou a hora de ir até a pedra, conhecida como "Lion's Rock". Chegamos ao local no meio da tarde e vendo ela debaixo já deu para sentir o quanto era imponente. Os jardins ao redor também não passaram despercebidos, muito bonitos!
Tanto eu quanto a Jana temos medo de altura, mas iniciamos bem confiantes o trajeto até o topo e sempre admirando a beleza daquele lugar incrível. Subimos até uma parte, mas o trecho final, onde o início é marcado pelas patas do leão, é uma escada bem íngreme grudada no rochedo. Fizemos a primeira escada e a Jana teve que voltar. Eu segui, com a perna tremendo e as mãos suando, mas firme no objetivo de ir até o final. São 370 metros de altura, mas a vista maravilhosa de 360 graus compensou o esforço e o medo de chegar lá em cima. Lugar fantástico!

 

Curtimos tanto a cidade simples e a família da guesthouse que resolvemos ficar mais uma noite, e no dia seguinte faríamos o trekking na "Pidurangala Rock" (..lugar de onde você tem uma vista sensacional da "Lion's Rock").
Tínhamos lido que o treeking até o topo da Pidurangala não era tão fácil e não tinha a mesma estrutura turística que a Lion's Rock, de qualquer forma chegamos lá com nosso tuk tuk e seguimos caminhando mesmo sem saber se chegaríamos até o topo. Acabou que não foi tão difícil, mas no último minuto quase desisti quando vi que para chegar na pedra em si, que é o ponto onde se enxerga a Lions, eu teria que escalar e passar quase que deitada entre duas pedras gigantes....na minha cabeça eu só pensava: "se essa pedra desliza já era! kkk". Com um mal estar gigante, mas com a força da Jana, eu subi. E que bom que eu subi, porque de lá tivemos a vista mais linda da nossa trip pela Sri Lanka. Uma imagem poderosa da Lion's Rock no meio de toda aquela floresta, algo que não se vê em qualquer viagem. Um sentimento de felicidade gigantesco nos tomou naquele dia e, simplesmente, agradecemos por termos decidido ficar.  

 

Partimos de ônibus local para a costa leste, a região que, junto com o norte do país, foi super afetada pela guerra civil que durou 26 anos entre os rebeldes "Tamil Tigers" e a força armada do país. Como falei anteriormente, ela acabou recentemente em 2009. Na realidade, o leste e norte do país entraram no nosso roteiro porque ficamos curiosas em conhecer as regiões que, em função do impacto da guerra, ainda não são tão exploradas pelo turismo. (Na foto, o ônibus que pegamos para chegar até a parada do ônibus que nos levaria até nosso destino.)​

Nossa primeira parada foi a praia de Trincomale, um lugar que além da guerra, foi extremamente impactado pelo tsunami de 2004 (o mesmo que atingiu a Tailândia). A praia em si não é bonita, porque é mais dedicada a pesca, mas no dia que chegamos tivemos oportunidade de ver o momento que os pescadores puxavam as redes no final da tarde, onde eles ficam todos enfileirados com uma corda ao redor da cintura e vão revezando até que a rede chegue na areia. A imagem dos vários peixes se debatendo na rede é impressionante, mas gerou um sentimento estranho em mim e confesso que não sei explicar porque. No outro dia resolvemos conhecer a praia de Nilaveli, que ficava a, mais ou menos, 10 km de onde estávamos. Quando chegamos, foi totalmente amor à primeira vista. Um lugar completamente deserto e apenas um restaurante. Ficamos o dia inteiro por lá, curtindo o mar azul, nos divertindo com as ondas grandes, apreciando o pôr do sol e aproveitando a tranquilidade de um lugar que ainda não foi descoberto pelo turismo. Acabamos voltando nos 3 dias seguintes heheheh. Nosso plano era ficar 3 noites por lá, mas acabamos ficando 5. Neste momento da trip, conhecemos o nosso amigo Will, que é da Inglaterra e felizmente acabou nos acompanhando em Trincomale e nos próximos destinos do Sri Lanka.

 

​Todos os dias que fomos até Nilaveli, tivemos a sorte de termos a companhia do nosso querido motorista de tuktuk, o Kumar. Ele nos levava e nos buscava no horário combinado. Sabe aquelas pessoas que tem um olhar especial e de cara você sente que são do bem? Era ele... Um anjo colocado em nosso caminho nesta parte da viagem. Uma pessoa simples, com uma vida sofrida num país pobre, mas com um coração do tamanho do mundo. Acabamos descobrindo que ele gostava de loteria (que é algo comum no Sri Lanka assim como no Brasil), então num dois dias que estávamos com nosso querido motora, a Jana comprou um bilhete e deu de presente. Ele ficou mega feliz e tocado! Eu, Jana e Will ficamos na torcida para que ele ganhasse, porque, quando perguntamos o que ele faria com o dinheiro, ele disse que compraria um tuktuk novo já que o que ele tem é velho e ainda está sendo "arduamente" pago.

Chegou o dia de, infelizmente, ir embora. Partimos de ônibus local para Anuradhapura, uma das cidades que estávamos curiosas em conhecer, já que é um considerado um lugar extremamente sagrado pelos Budistas. Além disto, ela é considerada Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2006. Budismo é a religião predominante no  país, seguida do Hinduísmo.

 

O trajeto até lá foi uma aventura e tanto. O ônibus que pegamos ficou extremamente lotado, se tornando um desafio passar no meio do povo todo e descer na nossa parada. Heheheh... Mas conseguimos! Chegamos e a cidade era simplesmente um forno, calor insano. De qualquer forma nosso plano era ficar apenas 1 dia (2 noites), então nos planejamos para um tour de tuk tuk, no outro dia, para conferir os pontos mais interessantes da cidade.
O tour passou por vários pontos turísticos incluindo templos, stupas e ruínas da antiga civilização Lanca. A cidade respira budismo, uma religião, que como o hinduísmo, sempre me impressiona pela devoção. Pessoas carregando tijolos e ajudando na construção de um templo que vai demorar 10 anos para ser construído; um menino de, no máximo 2 anos, na frente de uma estátua do Buda rezando; pessoas vindas de vilarejos afastados e rezando em conjunto nos templos; milhares de oferendas nos templos (comida, flores, incensos...); os outros milhares de pedidos feito em forma de um laço com moedas e pendurados nas árvores ao redor dos templos (moedas que depois são entregues para Buda); uma família andando ao redor do templo e agradecendo; os muitos monges fazendo, também, suas rezas e meditando, ou até mesmo as vacas espalhadas pelos locais sagrados, que descobrimos pelo nosso guia que os budistas compram dos muçulmanos para evitar que sejam mortas. Tudo chama muito a atenção e me deixou até meio hipnotizada. Foi um dia intenso, cheio de emoção e energia boa, daqueles dias que você mergulha na cultura e agradece pela oportunidade e o privilégio de estar ali, vivendo aquela experiência incrível.

Um detalhe interessante é que os motoristas dos tuk tuks tem um livrinho de recomendação que eles pedem para você escrever um "review" (sim! escrever!) e depois mostram para os próximos passageiros. Achei o máximo porque é algo totalmente diferente da nossa realidade de viajantes conectados, onde você encontra tudo online no tripadvisor, booking, google etc. Não é demais ainda existir este tipo de coisa? Eu achei demais!

Nosso dia acabou na pousada, tomando cerveja e saboreando o jantar delicioso que prepararam pra gente. Detalhe que neste dia nós 3 tomamos muita cerveja (que encomendamos pelo dono da pousada) e no dia anterior já tínhamos tomado uma garrafa de vinho que compramos no mercado. Acabamos descobrindo, antes de ir embora, que o proprietário estava impressionado com a gente, já que no Sri Lanka não é nada comum às mulheres beberem álcool. (hehehe ops!)

 

Lembram que comentei que em Nuwara Ellyia as crianças pediam canetas na rua? Então, em Anaradhapura ficamos amigos do dono da pousada e ele nos confirmou que as crianças realmente não têm condições de comprar material escolar e, por isto, pedem para os turistas (melhor que pedir dinheiro certo?). Ele também nos contou que fazia doações para uma escola nos finais de ano, o que nos motivou a ajudar já que não tínhamos dado caneta para os meninos em Nuwara Ellyia. Cada um de nós doou uma quantia em dinheiro a qual foi possível comprar vários cadernos, canetas, lápis, borrachas e apontadores. Despedimo-nos de Anuradhapura certamente com o coração muito feliz, já que, fazer o bem, mesmo com pequenas ações, faz muito bem para a alma!

 

Partimos para Jaffna no norte do país, super finas, na primeira classe de um trem. :) Nosso amigo Will nos encontraria por lá nos próximos dias. Já no trajeto pude perceber a diferença no cenário, já não tão verde e com muitas dunas de areia. Chegamos à nossa pousada, onde fomos carinhosamente recebidas pelo dono que nos mostrou nosso quarto e nos serviu um chá de vanilla maravilhoso! Largamos as mochilas, tomamos nosso chá, organizamos nosso tour de tuk tuk para o dia seguinte e partimos para uma caminhada pela cidade, onde visitaríamos um templo hindu, muito famoso. No caminho, percebemos o quanto a cidade era calma e sem muito movimento até mesmo de locais. Só para ter uma ideia, vimos apenas 4 turistas pelas ruas...
Depois da visita ao templo, encontramos um restaurante indiano para jantar e, após a janta, resolvemos tomar sorvete. Foi na sorveteria, nesta noite, que tivemos um dos momentos mais genuínos da trip pelo Sri Lanka e que nunca vou esquecer. Enquanto eu estava na fila para pagar, uma menina indiana se aproximou da Jana e começou a conversar. Depois de 5 minutos ela perguntou se não queríamos ir jantar na casa dela. Fiquei super impressionada com o convite inusitado, mas também curiosa e feliz. Me peguei pensando o quanto aquele convite era especial e diferente, já que jamais faria algo deste tipo no meu próprio país. Vivemos num Brasil tão inseguro, infelizmente, que nos tornamos pessoas desconfiadas e incapazes de gestos como estes. Momentos assim são, certamente, os que ficam mais marcados e mais tocam meu coração. Combinamos a janta para noite seguinte, pois nosso amigo Will também poderia compartilhar este momento. Despedimo-nos e, no retorno para casa, mais um momento especial: nosso motorista do tuk tuk não sabia onde era nossa pousada e mesmo com o suporte do nosso celular ele não conseguia se achar. Ele acabou parando para perguntar e, de repente, nos vimos rodeadas de locais na rua tentando se comunicar e ajudar. Foi incrível ver mais uma vez como temos pessoas gentis e do bem neste mundo. Teve um senhor que falava um pouco de inglês e perguntou de onde éramos. Quando falamos Alemanha e Brasil ele praticamente entrou dentro do tuk tuk, feliz da vida, falando que eram os melhores países do mundo e nos abraçou de forma sincera. Gestos pequenos, mas que fazem toda diferença.
No dia seguinte fizemos nosso tour pela cidade. Os viajantes que vem até aqui não encontram pontos turísticos e nem mesmo muitas pessoas locais pelas ruas, mas, tem a oportunidade de ver e, principalmente, sentir, muito da história e do charme de uma cidade que um dia, com certeza, foi muito bonita e que se recupera lentamente dos períodos difíceis da guerra. Turistas por aqui? Artigos de luxo certamente. O norte do país ficou praticamente inacessível durante duas décadas por causa dos conflitos, o que impactou muito o turismo. Eu nunca tinha visitado um lugar "pós-guerra", e as muitas ruínas e construções, junto com as ilhas remotas muito pouco habitadas (pois muitas pessoas deixaram o país), te fazem imaginar o que se passou pela região e, sem dúvida, refletir no quanto precisamos de mais paz neste mundo... Junto com este sentimento, vem a fascinação por um lugar que esta emergindo, praticamente, das cinzas e que, mesmo com as dificuldades, tem um povo mega simpático, acolhedor e que te pede até selfies. Além disto, tivemos a sorte, mais uma vez, de ter um motorista super do bem, gentil e aberto a conversar e compartilhar. Nosso dia não teria sido o mesmo sem a energia boa que ele nos passou durante as horas que estivemos juntos.

 

Retornamos para a pousada e nos preparamos para nossa janta na casa da Chitra, a menina linda da sorveteria. Seis horas, em ponto, ela e o marido passaram para nos pegar de tuk tuk. Nosso amigo Will já tinha se juntado ao grupo novamente. A casa deles era afastada da cidade e, mais uma vez, nos sentimos lisonjeados pelo fato de eles terem trabalhado o dia inteiro e ido até a pousada nos pegar. Chegamos a casa e o cheiro da comida era maravilhoso! A casa era grande, mas muito simples. Enquanto a janta era preparada pelas duas irmãs da Chitra, que também moravam na casa, conversamos e soubemos mais sobre a vida deles. Ela tem 19 anos, conheceu o namorado na Índia, enquanto ele estudava lá, e resolveu se mudar para o Sri Lanka onde trabalha como enfermeira num hospital. A janta ficou pronta e tudo foi carinhosamente organizado no chão em cima do tapete, que eles também usam para dormir todos juntos na sala. Sentamos todos ao redor dos pratos, nos deliciamos com a comida feita com todo amor e ainda aprendemos a comer com uma mão só (tentamos! heheh). Agora, imaginem a nossa felicidade de viajantes, de ter o privilégio de um momento raro como estes, com uma família local, que não tem cama para dormir, mas que nos ofereceu um jantar dos deuses e nos recebeu de coração aberto na própria casa. Faltam-me palavras, de verdade, para expressar meu sentimento de gratidão.  

 

A realidade de Jaffna e, até mesmo, do nosso motorista e da menina indiana, nos tocou de forma extremamente singular e posso dizer que este dia foi um daqueles momentos de guardar num lugar muito especial do lado esquerdo do peito.
Jaffna não está no radar turístico do Sri Lanka, mas é um lugar que realmente te toca e que valeu muito a pena visitar. A cidade foi nossa última parada e de lá partimos, de ônibus, para a capital Colombo, onde fecharíamos nossa passagem por este país incrível.
No ônibus tivemos oportunidade de conhecer alguns jovens locais que acabaram nos dando outra visão e perspectiva da realidade de um país que é considerado extremamente pobre. Jovens que moram nos Estados Unidos, falam inglês super bem e que, diferente da maioria da população, tiveram mais oportunidade de estudar e ter um futuro melhor. Foi muito legal conversar e trocar ideias com eles durante o trajeto até Colombo.
Chegamos à capital, prontas para nosso vôo de despedida, mas com aquela vontade na alma de poder ficar mais tempo e explorar melhor esta "Ilha" chamada Sri Lanka ("um país em formato de coração", como li em um blog! :)). Um lugar surpreendente, que te oferece as mais diversas experiências, paisagens, sabores e emoções. Foi impossível não se apaixonar pelo país que entrou de surpresa no meu roteiro, depois de tanto escutar de amigos viajantes que ele era incrível. Tive a oportunidade de viajar 3 semanas por lá, tudo por terra, e posso afirmar que ele é muito mais incrível do que as histórias que ouvi. O povo genuíno, as praias, os elefantes, as plantações de chá, as montanhas, a religião, a cultura, a comida e, até mesmo, a própria história da guerra civil recente, fascinam qualquer pessoa que goste, pelo menos um pouco, de lugares diferentes. Nos lugares onde passei me senti, muitas vezes, numa viagem no tempo, onde as pessoas te chamam de "madam" e ainda usam aqueles celulares antigos, pequenos, e que só mandam mensagem sms. Nós dias de hoje, isto é no mínimo, raro.
Bom, mas porque a grande e doce surpresa da trip? Porque nunca imaginei na minha vida visitar este lugar remoto no Oceano Índico e, no final, o Sri Lanka acabou envolvendo meu coração de uma forma linda com sua diversidade de paisagens sensacionais, sua comida deliciosa (minha segunda favorita depois da indiana) e, principalmente, seu povo querido, simples e do bem. Quantas pessoas e momentos únicos nesta trip!


"The things that matter most in our lives are not fantastic or grand. They are the moments when we touch on another". Jack Kornfiel (Tradução: "As coisas que mais importam nas nossas vidas não são fantásticas ou grandiosas. Elas são os momentos que tocamos um ao outro.")


"Stuti" Sri Lanka! Obrigada Sri Lanka!


Thanks to Jana Jans, my "travel soul mate"!

 

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QUEM É A GRAZI?

Olá, sou a Grazi Inácio, idealizadora do Follow Me Por Ai, empreendedora, facilitadora de projetos, encantada por projetos sociais, palestrante e exploradora do mundo. Viajar e estar perto da natureza é puro amor,  fazer projetos acontecerem é uma das minhas paixões. Tenho 42 anos e já viajei por mais de 40 países. Trabalhei por quase 14 anos em uma multinacional coordenando projetos globais na área de tecnologia, trabalhando com pessoas distribuídas por vários países e tendo a oportunidade de viajar e conhecer muitos lugares pelo mundo. ...

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